As aventuras de Gilgamesh.
Iuri Aguiar
O homem diante de suas vicissitudes e pretensa busca de algo lhe pertence, pertencendo na medida em que se atira ao encontro com o que se desvela insatisfação da busca. Eis diante de mim um tratado e de um homem chamado Gilgamesh, Rei de Uruk, ”eis o homem para que todas as coisas eram conhecidas” (A Epopéia de Gilgamesh, pág. 92). Um homem que conhece mistérios, que pena, atira-se num lance ao mundo instaurando o destino. A jornada de um herói, um humano, um mortal, um rei, um filho dos deuses; Que passa que fica glorifica e morre... O destino assalta-o em sua fortaleza toda esplenderosa de certeza descrédito, e o leva ao caminho desconhecido dos sonos misteriosos da floresta, da dor da escuridão que atravessa em busca da certeza da vida eterna, conhece segredos, é ajudado pelos deuses, e, numa procura desenfreada do desconhecido, perpassa a vaidade, onde se estampa a mediocridade, num olhar cansado e fraco com medo e pavor, revela a eterna desaventurança do homem em seu mundo de possibilidades. Retorna ao lar e conta-nos sua historia.
Gilgamesh parte em busca de si mesmo na jornada humana do herói.
Tomo aqui em minha interpretação como um rito de passagem o momento em que Gilgamesh chora. Gilgamesh tendo ido banhar-se no rio, uma serpente sente o cheiro da flor que Gilgamesh tinha se exaurido para conseguir, e que lhe forneceria a juventude, e toma-lhe a flor das mãos. Após esse momento o nosso herói reconhece em incertitudes os caminhos tortuosos que fizeram chegar ao conhecimento de miséria e grandeza, espanta-se pelo fato de ter se exaurido, passado frio e temor, e depois de uma longa jornada nada lhe restar. Gilgamesh chora e decide voltar o mais rápido ao recanto do seu lar, onde é reconhecido como rei. Levando consigo, após um momento de névoa, a experiência do desfrute do conhecimento interno e pessoal e de sua posição e parte, na gloria dos homens, ajudado pelos deuses. Momento esse em que a névoa da duvida, o desabar do desfrute da possibilidade de ser imortal, a tentativa de assemelhar-se aos deuses, faz com que, ele reconheça seu valor. Há uma renascença em si mesmo e maior atenção ao que lhe aproxima como ser humano. A mediocridade e a honra revelam-se como que numa busca onde o equilíbrio é estabelecido pela procura, pela força de ser, a se findar na morte. Aqui Gilgamesh reconhece a aceita sua finitude e desaventurança que se preenche na aventura do encontro com o inesperado, caminho de si. Uma outra passagem de ritos, do caminho que leva ao conhecer mítico da possibilidade humana de estabelecer, uma maior integração com que lhe transcende; O momento em que na luta contra o guardião da floresta, o Humbaba, Gilgamesh fraqueja e é ajudado pelos deuses que o guardam e protegem. Momento em que sua vida é guiada pelo que o ultrapassa, um instante que desfruta da possibilidade de ser um deus, de estar integrado com a força da natureza cósmica dos deuses, forças estas que fazem parte e atuam na jornada do homem-herói-deus, Gilgamesh! Aqui lhe é concedida a graça de participar da conduta de ser para deuses. Reconhece a importância de sua jornada e a bênção de um deus esplendoroso com Shamash que já havia aceitado a sua oferenda. Gilgamesh segue firme e determinado a cumprir a missão de sua jornada. Perpassada por ritos e numa tentativa de demonstrar ao caminho do inefável, que se faz na efetiva conduta de relatos míticos, a epopeia registra o caminho que o homem efetua para o alcance de si, o reconhecimento de sua possibilidade de existência e conduta no comportamento da vida.
Outra interpretação que faço aqui é o momento de volta e morte do herói. Após ter reconhecido sua nova posição frente às leis cósmicas que regem, Gilgamesh escreve seu conhecimento ao povo do seu reinado, reconhece sua jornada, aceitando-a como condição de possibilidade de justificação de existência, Reavalia sua antiga atitude despótica, transmite o conhecimento de suas façanhas, aceitando a dor, glorifica a vida, e á transmite com entusiasmo e inebriada satisfação que o tornara glorioso, quase como um deus diante aos mortais. Eis a glorificação do herói ao alcance de si.
Bibliografia:
A Epopéia de Gilgamesh. Anônimo, Martins Fontes
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