sexta-feira, 24 de janeiro de 2014


Hoje tive a nítida impressão da esperança e alegria na delicadeza do encontro, presenciei um olhar do primeiro instante, aqueles momentos onde o olhar é encantado, onde o ver e o sentir são movidos a partir da capacidade de maravilhar-se de sentir-se integrado, preenchido.

Uma família reunida, pai mãe e três crianças; um bebê uma adolescente e uma menina de uns seis anos com tranças afros e coloridos que exalavam a magnitude da maravilha do tom ébano de pele, desfrutavam a primeira vista imensidão do mar.

Olha o mar! Admirou-se a menina, o pai sorria uma clara visão de entusiasmo, de espanto, de saborear a singela alegria com o novo, os olhos brilhavam; Como sabe que é o mar, você nunca viu, pergunto o pai... Não ouvi o que a menina maravilhada respondeu, na verdade, o que me chamou atenção era o Encontro, a capacidade de vivenciar o espanto, a admiração, na presença do mistério, do não conhecido, a capacidade mesma de desfrutar o êxtase da primeira espiada, experiência do extraordinário no ordinário.

Uma sensação de alegria enchia a monotonia de cores, trazendo uma irradiação de pureza, de celebração da vida, aquele momento me trouxe uma sensação de entusiasmo, me fazendo sentir parte de uma mesma visão, de uma mesma família, que durante o rolar da pedra de Sísifo, encontra-se feliz, diz um sonoro e forte sim a vida, sim ao viver, um encontro encantado pelo puro e singelo, pela espera da escuta, pelo olhar sempre renovado, vivenciando o agora no alento que o mar traz.

Olhos molhados em alegria, sorrisos e acolhimento, lembrança de um tempo perdido, descoberto, revivido, construído com a simplicidade de poder mover e emocionar-se pelas cores da vida convidativa, família linda me fez olhar pra mim mesmo, para a pressa que seguimos no anseio da felicidade, me fez aprender a saborear o momento já.

Sigo andando, dou uma última olhada para a família afro real, o bebê me olhava com um olhar inquieto, questionador, decifrando o prazer que sinto a gratidão do encontro, o presente que o acaso me proporcionava, seus olhos glaucos mostravam a espontânea sensação de ser, e abriu um sorriso clarificante, dando-me a graça da sua benção, despedida do puro e singelo encontro.

Muito Obrigado os que brilham na presença da simplicidade renovando seus olhos meus.
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domingo, 12 de janeiro de 2014


Caindo a noite partiu acelerado rumo ao encontro com Lisa, pouco se passava em seus pensamentos, algum impulso o fazia mergulhar em uma profunda estarreces parecia que a necessidade de milhares de vozes opressoras que constantemente marca o caminho adolescente ecoava em seus passos acelerados. Ainda ouvia rifes velozes do hard core, e a noite oferecia-se, naquele mês de inverno em SSA, ao deslumbre underground das ratazanas negras que espalhavam o som de peso na cidade.

Impelido a novas experiências sinestésicas Luquinha irradiava a ânsia e coragem, o impulso vital de saborear sentidos confundindo o dia e a noite, tornando relativamente sutil o limite entre os dois, perambulava sonoramente o claro e escuro de si e da vida.

Marcara no final do corredor da vitória para o encontro surpresa com Lisa, iria ao festival de Rock que prometia encontro êxtases e conversas lançadas ao tempo com o tempo interno repletos de descobertas características de uma fase de lançamento ao mundo das possibilidades, cada noite uma vida vivida entre o continuo despertar da urgência em viver.

___ Trouxe?

___ Na mão.

Lisa uma princesa que Lukinha conhecerá naquele mesmo dia de Sábado na coringa, que aglutinava quem curtia o underground. Aconteceu que o tempo perdido se fez revivido. Intensidades impulsionavam os novos amigos ao desfrute do dia anil, de volta e volta com suas promessas. E assim seria. Na noite estreante que redimia os impulsos inconstantes.

Lua mostrava uma sinceridade que confortava Lucas, ela estava envolvida em vestes escuras, o que realça com fulgor sua pele branca e seus olhos verdes, o cabelo negro escorrido pelos ombros, parecia uma ninfa que acabara de chegar à cidade quente e misturada, dando lhe um ar de estrangeira apenas a noite acolhia o contato das cores e o contraste das pessoas alheias as inimagináveis aventuras servidas gentilmente pela atração da canção noturna. Canção da simplicidade do som.

­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­___ Me sinto impelido rumo à eternidade quando saboreia o encontro contigo. Acho que somos deuses nessas noites caóticas. Minha Princesa Pálida.

___ Deuses desses que enobrecem a vaidade humana sua vaidade né mocinho?!

___ Nada disso embalamos o sonoro da criatividade em nossas bocas incontidas, deslizamos na noite solitária a coragem nos faz deuses do underground Lisa!

Tomaram o ônibus rumo ao circo onde aconteciam apresentações de bandas da cena periférica da cidade, na paisagem da janela desfilava memoria que o homem insiste em escrever com construções suntuosas, um impulso incontido na ânsia Metafisica da perenidade.

Lukinha sempre introspectivo ansiava a contemplação do som forte e pulsante, como corações acelerados que marcavam o ritmo heavy das apresentações, parecia que o som o tirava da letargia o fazendo entrar em um estado enérgico levando o transe comunicativo da união com o caos de seus conflitos internos.

__ Olha lá a Juliana, pera um pouco lukinha.

 Lisa corria e gritava aos braços da sua amiga Juliana, encontro enaltecido pelo som que conduzia velozmente a relação amistosa de Juliana e Lisa meninas eram poucas na noite heavy e o espaço de celebração engrandecia à medida que o ritmo acelerava os pensamentos desconexos.

Lukinha também corria só que em direção ao palco para extravagar toda insatisfação e irradiante sensação de liberdade na noite que oferecia o contato com a frenética e louca liberdade palpável na dança na musica e na presença dos loucos cabeludos negros que marchavam a medieval idade contemporânea na Siderópolis soterópolis.

Certamente eram deuses vaidosos.

__ Juliana, estava pensando em montar uma banda só de meninas o que acha?

__ Não delira como vamos achar quem seja realmente underground para tocar conosco?

Juliana era estudante de Belas Artes, envolvida com manifestos e pinturas subversivas na cidade adormecida de jovens alienados pelo consumo midiático, ela e Lisa faziam circular um fanzine com desenhos e pinturas autorais, maneira mesma de ultrapassar a fronteira do já visto lido e dito.

__ Juliana suas expressões artísticas são um deleite ao desfrute da contemplação alheia, mistura de delicadeza e a insatisfação visceral de existir limitado por anseios medíocres da cidade e de nos mesmos. Comentou Lukinha gesticulando de forma teatral e sedutoramente infantil.

__ Expressões de nossas horas de tedio e angustia sem o encontro com a Lua Cheia, brincou Juliana.

__ Expressões de nossos desejos improváveis impensados e impulsionados pela leveza da Vida, explanou Lisa com sua foz rouca e inebriada de sensações sãs.

“Delírio noturno moçada é agora que vamos voar”. Gritava o vocalista da banda em cena fumaça e sonzeira abafava o espaço da solidão e do tedio, novo ritmo acelerado nos olhos vitrificados das forças do existir.

Lukinha ficou saboreando a primeira edição do fanzine...A trilha sonora o levava a novas descobertas e potencialidades criadoras misturando-se com hálito renovado da vida sofrida na favela do baixo.

__ É isso que quero. Disse entusiasmado a si mesmo.

“Vida Sacana”... “O povo na lama”... ”desiludido”...  Ecoava embaixo da lona teatral da fuga na linha incerta do torpor inspirado na revolução interna de cada um maquina desejante em transformar o mundo com um grito incontido da nova maneira de existir, colorindo de cinza a tristeza sem cor dos olhos opacos opressores do mundo, que normalmente soa como maneira intima de linha imediata da incerteza e surpresa da vida.

 

 
à guiar.